Dietas

Adoro tudo que engorda!

Entenda porque é tão difícil resistir ao doces, chocolates, pães e comidas gordurosas - e conheça estratégias infalíveis para vencer essas tentações!

Chega a dar raiva! Cláudia Regina Resende, 28 anos, é capaz de fazer vários sacrifícios para não faltar à ginástica, procura no dia a dia anotar as calorias ingeridas nas refeições, bebe os tradicionais oito copos de água diários e, quando pode, ainda troca o elevador pela escada. Enfim ela teria todas as condições de perder aqueles quilinhos que carrega a mais na silhueta não fosse o desejo incontrolável de atacar quitutes e guloseimas. " A verdade é que tenho garra para enfrentar quase tudo na vida, mas sucumbo covardemente diante de um doce ou uma barra de chocolate. E como isso acontece com uma certa freqüência, o ponteira da balança acaba não cedendo muito."

A gula por chocolates, pães, doces e comidas gordurosas em geral é creditada a uma mera ausência de força de vontade por parte do comilão - o que leva muitos rechonchudos a ser culpar por esta imaginária falta de controle e de amor próprio associada à dificuldade em perder peso. A ciência, porém, veio em socorro deles que a fissura por tudo o que engorda não tem nada a ver com fraqueza de caráter. " A gana de saborear guloseimas é fundamentalmente neuroquímica", explica o endocrinologista carioca Tércio Rocha, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. É a química cerebral que impede pãozinho, manteiga, chocolate, molho quatro queijos e sorvete de morango. "Todas essas delícias engordatívas contém substâncias que estimulam a produção de neurotransmissores ligados à sensação de vitalidade, prazer, e bem-estar, como a cerotonina. Por isso é tão difícil comer um só", diz Tércio.

Quando a lei do menor esforço entra em ação

Ao chegar num edifício, de um lado você vê a escadaria e do outro a porta do elevador. Um impulso natural o leva para o elevador, não é verdade? Até o atleta mais dedicado sente-se atraído pelo caminho mais fácil, mesmo que depois resista ao impulso e queime calorias subindo pelos degraus. È a velha lei do menor esforço entrando em ação na vida e no corpo. "O nosso organismo é uma máquina que procura instintivamente economizar energia e nada sabe sobre a moda dos bumbuns empinados, das coxas roliças e da barriga sarada", observa o especialista Tércio Rocha.

Aplicada ao cardápio nosso de cada dia, a lei do menor esforço corporal "raciocina" assim: se 1 grama de gordura gera 9 calorias, 1 grama de carboidrato produz 5 e 1 grama de proteína 4 calorias. Que venga la gordura! Quem prefere comer livre e espontaneamente, uma fatia de ricota light e deixar de lado um suculento pedaço de queijo colonial pleno de gordura? Por isso o termo reeducação alimentar está na ordem do dia: porque, se deixarmos a boca seguir a sua "lógica" natural, ela escolherá invariavelmente o que mais engorda. "É uma espécie de memória química de já ter passado fome que leva alguém a besuntar exageradamente de manteiga uma fatia de pão ou escolher sempre o alimento mais gorduroso", destaca Tércio. Se há dez ou doze gerações os antepassados de um indivíduo não passam necessidade, é provável que ele seja mais racional na sua dieta alimentar. Por outro lado, se os avós ou bisavós dessa pessoa viviam na miséria é certo que ela deixara de lado as saladas e o peixe grelhado para cair de boca no feijão com arroz, na picanha gorda e em quatro ou cinco quindins de sobremesa, fora o cafezinho com açúcar.

A guloseima dá prazer...e aí você não resiste

Além da lei do menor esforço, a batalha dos gorditos para emagrecer tem outro inimigo: a neuroquímica cerebral. Toda vez que ingerimos gordura, o cérebro produz endorfina - substância que transmite uma sensação de relaxamento e bem-estar. Em outras palavras, nossa mente nos condiciona a comer alimentos gordurosos para ter prazer.

Mas, se é assim, por que há pessoas que ligam menos para a gordura? "Porque elas têm altos níveis de leptina no organismo", explica Tércio Rocha. Recém-descoberta pela ciência, a leptina é um hormônio produzido pelas células gordurosas e que informa o cérebro de que os compartimentos celulares armazenadores de gordura já estão lotados. O cérebro registra essa informação e dispensa a ingestão desses alimentos. Por outro lado, quem não consegue de parar de comer gordura tem uma deficiência metabólica que impede a produção da leptina. É por causa dela que algumas pessoas sentem asco por gordura quando saem de uma churrascaria, enquanto outras - os gordinhos - ainda são capazes de encarar um pão com muita manteiga.

Pãozinho, biscoito, bolo...quero mais, quero mais!

O excesso de peso dos comilões se deve em grande parte à a ação da dupla açúcar e farinha branca, que geralmente trabalha unida. Os rechonchudos costumam dizer que engordam porque comem muito açúcar, mas na verdade a causa é a farinha refinada que entra na receita de quase todos os doces e gera compulsão alimentar. "Ninguém chega no meu consultório dizendo que rasgou a pontinha do saco de açúcar e ficou comendo a noite toda", brinca Tércio. "A compulsão é por bolos, biscoitos, amanteigados, pães doces e outros farináceos. O açúcar refinado engorda, estimula a produção de serotonima, tem muita química e provoca diabetes, mas não gera compulsão, ao contrário da farinha branca". Um exemplo da dependência neuroquímica desencadeada pela farinha é o do sujeito que, depois de devorar um misto quente, pede um hambúrguer, em seguida uma coxinha de galinha e arremata com uma generosa fatia de torta de maçã - o misto-quente dispara o gatilho da fissura química e o resto vem no embalo. Segundo pesquisas recentes, 60% das mulheres que padecem do chamado efeito sanfona - o velho engorda, emagrece, engorda, emagrece - têm compulsão alimentar em relação a farinha refinada.

E como se dá essa dependência? Quando os metabólitos do trigo, durante o processo digestivo, entram em contato com as glândulas endócrinas situadas na primeira porção do intestino, liberam uma substância semelhante à endorfina - a enxorfina -, que sobe ao sistema nervoso central provoca a sensação de prazer e conseqüentemente vício. Devido a fatores genéticos, nos gordinhos a enxorfina é produzida em grandes quantidades e age no chamado centro da fome, estimulando-o - por isso eles não conseguem comer apenas um pão de queijo no lanche. Já no caso das pessoas magras, a produção de enxorfina não é tão grande a ponto de estimular esse centro, e meio pãozinho de queijo pode ser suficiente para provocar a sensação de saciedade.

Por fim, a farinha como o açúcar, ainda contém tripofano, substância que estimula o cérebro a produzir a serotonina - neurotransmissor que regula o prazer, o sono, o apetite e a própria alegria de viver. "Se a pessoa simplesmente cortar, de uma hora para outra, o açúcar e a farinha, provocará uma queda brusca de serotonina no organismo e manifestará uma síndrome de abstinência semelhante a de um viciado em álcool ou em cocaína", adverte o endocrinologista Tércio Rocha. Entre os sintomas mais freqüentes, costumam estar dor de cabeça, depressão, enjôos e mau humor.

Só um pedacinho pode fazer mal, sim. Então, resista

Bom, mas não é porque guloseimas e delícias açucaradas viciam que você vai entregar os pontos, certo? Com um pouco de esforço e uma orientação profissional correta, é possível driblar esses verdadeiros adversários da boa forma. A primeira dica é começar reduzindo a quantidade de quitutes no dia-a-dia - não há por que continuar se entupindo até o gogó com doces, gorduras e farináceos. O melhor, dizem os especialistas, é evitar o consuma de açúcar branco e trocar os produtos feitos com farinha de trigo refinada pelos similares produzidos com farinha integral. Você pode estar pensando: "mas o organismo necessita de açúcar para funcionar bem". De fato, precisa mesmo. Porém é possível obter sua dose diária consumindo frutas e carboidratos complexos, como arroz, batata - durante a digestão os carboidratos são decompostos em glicose. E como a metabolização dos carboidratos é mais lenta do que a do açúcar branco, os níveis de glicose no sangue tendem a se manter mais estáveis com essa substituição. Resultado: sua "fome" por doces diminui. Se duvida, faça um teste. Durante dois ou três dias, coma no lanche da tarde qualquer coisa com açúcar refinado - você vai ver que a vontade de comer mais um docinho aparece de novo duas ou três horas depois. Por fim, faça o mesmo trocando o doce por uma banana amassada com aveia ou granola (sem açúcar, claro) com iogurte. Talvez a vontade de comer doce nem pinte mais no mesmo dia.

Se conseguir se manter nesse ritmo por uma semana, a fissura diminui, e muito. "A partir daí, a vontade de atacar guloseimas se reduz 1/3 do que era antes", diz Tércio Rocha. Outra boa dica para manter a compulsão a distância é fracionar as refeições o máximo possível. Procure se alimentar a cada três horas - pode ser um prato de sopa, um iogurte ou uma gelatina diet. "O importante é não deixar a fome chegar", recomenda Tércio.

Chocolate: o pretinho vicia

Quem resiste a visão, ao aroma e ao gosto fantástico da barra de chocolate? Poucas pessoas. Ele é o grande vilão dos regimes. Isso porque reúne todos os componentes engordatívos e fissurantes do açúcar refinado, da farinha branca e da gordura. A nutricionista Debra Waterhouse, autora do livro Por que as Mulheres Precisam de Chocolate?, diz que 50% das calorias da delícia derivam do açúcar, enquanto outros 50% vem da gordura. Além disso, o chocolate ainda contém cafeína e teobromina, que estimula o sistema nervoso central, e anandamina, que diminui a ansiedade, numa ação semelhante á do THC, principal componente da maconha. O consumo exagerado da guloseima dá início a um círculo vicioso: a pessoa come chocolate e se sente disposta e bem-humorada, mas como a sensação é passageira, cai em depressão assim que termina o efeito e sai em busca de mais chocolate para devorar. Para quem recorre ao rótulo diet, um alerta: a versão tem apenas 50 calorias a menos que a tradicional, pois embora não contenha açúcar, a quantidade de gordura é a mesma do chocolate comum.

Cinqüenta por cento das calorias do chocolate vêm da gordura, que - com outra substância, a foniletiamina - eleva os níveis da prazerosa endorfina.

Cinqüenta por cento das calorias restantes derivam do açúcar, que aumenta a produção de serotonina no cérebro.

O peso das emoções

Além da neuroquímica cerebral, outro fator que influi decisivamente na vontade de devorar doces são as nossas emoções. È comum a pessoa associar as guloseimas a momentos felizes da infância e, diante de situações de ansiedade ou estresse, voltar-se automaticamente para os bombons e os biscoitos recheados como uma válvula de escape que lhe devolve a sensação de bem-estar.

Segundo Marco Antonio De Tommaso, psicólogo das agências de modelos Ellite e L'Equipe, a comida é o nosso primeiro ansiolítico e antidepressivo. Não importa se é por fome, dor ou carência: quando o bebê chora, a primeira providência da mamãe é oferecer-lhe o seio ou a mamadeira. Essa associação cria no cérebro um "gatilho" emocional que dispara sempre que nos vemos às voltas com algum estímulo desconfortável. Aí procuramos a mamadeira, representada pela caixa de bombons ou de biscoitos, reforçando novamente a antiga associação. Se você não consegue conter esse impulso de jeito nenhum, procure a orientação de um especialista.

Boa nova: ginástica e sexo ajudam no autocontrole

Segundo o endocrinologista Tércio Rocha, há duas outras formas de estimular a produção de endorfinas pelo cérebro, além da ingestão de itens engordatívos - sexo e atividade física. Isso mesmo, as chances de sucesso na dieta aumentam se você fizer exercícios ou amor logo antes de pintar a gula por doces & cia. Por isso, entre as endorfinas produzidas pelo movimento de todo o corpo e as derivadas do mero mover de suas mandíbulas, prefira as primeiras. Finalmente, se sentir que não consegue tocar o barco sozinha, não tenha vergonha de procurar ajuda de um profissional. Lembre-se de que a compulsão alimentar é uma doença, não um caso de falta de vergonha na cara, e que existem medicamentos (serotoninérgicos e aminoácidos) que são importantes aliados na luta dos gordinhos contra o problema.

Data: 3/7/2003

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